Lanternas de papel levadas pelo vento sobre as águas do rio iluminam o caminho das almas e propagam a paz.
Tradição, cultura e beleza se mesclam no Tooro Nagashi, homenagem japonesa aos antepassados realizada pela primeira vez no Brasil há 72 anos em Registro, SP.
Hoje, plenamente integrado à vida da cidade, o Tooro Nagashi se tornou uma das expressões culturais mais significativas de Registro, reconhecido como seu maior e mais emblemático evento popular.
Das origens às transformações do Tooro Nagashi de Registro, um olhar sobre a identidade nipo-brasileira da cidade. Documentário de Victor Yagyu.
“Tooro” significa lanterna de papel; “Nagashi”, levar-se pela água. Tradicional em diversas regiões do Japão, o Tooro Nagashi é uma cerimônia religiosa em homenagem aos mortos, na qual lanternas flutuam sobre as águas, iluminando o caminho das almas.
Em Registro, pioneira dessa celebração no Brasil, a história começou em 1949, quando um viajante japonês idoso se afogou nas águas do Rio Ribeira de Iguape. No ano seguinte, como forma de homenagem, Ishizo Sassai – dono da pensão onde o viajante se hospedara, em Sete Barras, cidade vizinha – confeccionou um modesto tooro, feito com madeira de caixa de sabão em pedra, tecido e uma vela de cera, e o lançou ao rio.
Foi apenas em 1955, seis anos depois, que ocorreu em Registro o primeiro Tooro Nagashi formal em solo brasileiro, já segundo os preceitos da tradição japonesa. O monge Emyo Ishimoto, recém-chegado ao país, conduziu a cerimônia ao lado de Bunzo Kasuga, cuja mãe era adepta da Nichiren Shu. Com zelo e fidelidade aos detalhes, deram início a uma tradição que se mantém viva até hoje.
Naquela primeira celebração, sete barquinhos foram soltos no rio, cada um trazendo um dos sete caracteres de NaMu MyoHo RenGe Kyo (“Eu me refugio no Sutra da Flor de Lótus do Maravilhoso Dharma”), o mantra sagrado da ordem budista Nichiren Shu.
O evento foi se fortalecendo ano após ano e, em seu percurso, contou com a participação do Registro Base Ball Club (RBBC, atual ACER). Em 1994, com a estruturação do Bunkyo de Registro, a entidade assumiu a realização da cerimônia, sempre em parceria com a ACER e com o apoio da Prefeitura Municipal.
Inicialmente restrita às vítimas do rio (nos primórdios, o Ribeira era o principal meio de locomoção), a homenagem ampliou-se também à memória das pessoas falecidas em acidentes na rodovia BR-116 (construída em 1960), que cruza o Rio Ribeira em Registro. Assim, o Tooro Nagashi foi se adequando também às transformações do território.
Com o tempo, os tooros coloridos passaram a carregar os nomes de antepassados e pessoas queridas que partiram, independentemente de crença ou religião. Cada oração e homenagem tornou-se expressão de gratidão e amor, fortalecendo os laços que nos unem às gerações passadas.
A dimensão religiosa ganhou caráter ecumênico, reunindo em harmonia diferentes tradições e filosofias espirituais, em um gesto conjunto de reverência aos mortos e de difusão de mensagens de paz.
Atualmente, ao lado da Nichiren Shu do Brasil, participam das cerimônias representantes do Templo Budista Honpa Hongwanji de Registro, das igrejas Católica e Episcopal, da Seicho-No-Ie, da Igreja Messiânica e das organizações Omoto Kyo (religião japonesa com raízes no Xintoísmo) e Soka Gakkai (associação que segue os ensinamentos de Nichiren).
No cemitério municipal, membros da comunidade japonesa, ao se depararem com túmulos abandonados, passaram a cuidar deles, identificando nomes quase apagados e levando-os ao monumento às almas. Dessa forma, também os antepassados desconhecidos recebem homenagens.
Esse culto ecumênico, realizado em 1º de novembro, transcende a esfera familiar e tornou-se expressão cultural de acolhimento, integração e compromisso social de toda a comunidade.
O ápice da celebração acontece no dia 2 de novembro, Dia de Finados. O ritual tem início com a purificação das águas do Rio Ribeira de Iguape. Ao som dos tambores japoneses (taiko), a monja Myoho Ishimoto – viúva do monge Emyo, do Templo Nichiren Shu Emyoji – entoa preces pela purificação do rio, em preparação para a cerimônia inter-religiosa dedicada às almas dos antepassados.
Realizada em frente ao monumento às vítimas das águas, a cerimônia conta, desde os primórdios, com a dedicação das famílias Akune e Yoshimoto, responsáveis pela organização e pelos preparativos. Com o passar do tempo, o evento transformou-se, expandindo seu significado: deixou de acolher apenas as vítimas das águas para abraçar a memória de todos os entes queridos que nos antecederam e a paz mundial.
Em seguida, ocorre o momento mais esperado: a soltura das lanternas iluminadas. Um a um, os tooros são acesos e lançados ao rio.
As águas do Ribeira refletem as luzes coloridas que se alinham em um extenso caminho de luzes levado pelo vento. Um rio de memórias, paz e esperança.
As lanternas flutuantes, feitas de madeira e papel colorido, são confeccionadas com cuidado e dedicação por voluntários do Bunkyo, do Departamento de Jovens Oniguiri Seinenbu, além de alunos da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) e do AME (Apoio ao Menor Esperança) de Registro.
Cada tooro leva consigo uma lâmina com o nome do homenageado, escrita em português ou em kanji, transformando-se em símbolo de memória, afeto e gratidão.